VELHA FACA

Apparicio Silva Rillo

 

      Um palmo e pico de aço,

      rude e glorioso pedaço

      da espada de um general.

      Cabo de prata estrangeira

      - velha faca brigadeira

      que nunca me deixou mal.

 

      Nesse tempo eu era moço,

      não tinha o sangue tão grosso

      nem a memória tão fraca.

      Índio gaudério sem marca

      era maior que um monarca

      quando empunhava essa faca.

 

      Mas não era compra-briga,

      desses que enchem a barriga

      em bochinchos de galpão.

      Mui amigo do sossego

      não arriscava o pelego

      em "rolos" sem precisão.

 

      Mas quando lá volta e meia

      me entreverava em peleia

      por honra ou obrigação,

      afrontava qualquer risco

      e essa faca era um corisco

      brigando na minha mão.

 

      Sei que há quem ria disso:

      - a faca tinha feitiço,

      coisa botada, sei lá!

      Se escapava da bainha

      e ia brigar sozinha

      se eu deixasse ela brigar!

 

      Mas Dom Tempo barbaçudo

      que dá sumiço em tudo,

      coisa viva e coisa morta,

      foi-se chegando ronceiro,

      cruzou sem pressa o terreiro,

      passou depois pela porta.

 

      Quantas vezes já nem lembro,

      vi enfeitar-se setembro

      com as flores roxas do ipé.

      Do moço de antigamente

      resta este trapo de gente

      que mal e mal fica em pé...

 

      E a velha faca amigaça

      me acompanhou na desgraça,

      me aparceirou na miséria.

      - Extraviada da bainha,

      ainda lá pela cozinha

      nas mãos da negra Quitéria.