ROMANCE DA MULATINHA
Apparício Silva Rillo
(www.galpaodapoesia.hpg.ig.com.br)
Ali nascera e vivera
na velha Estância da Cruz.
Filha de quem? não sabia...
História velha corria
de uns amores proibidos
entre o patrão e uma negra
que certa vez se enforcara
numa manhã de tormenta
deixando fama de linda
mais a lenda de um cambicho
que quase perde o sinhô.
Ali nascera e vivera
na velha Estância da Cruz.
Branca demais para ser negra,
parda demais para ser branca.
Invejada na cozinha
pelas crioula e chinas
lidadeiras de fogão.
Tanto assim que o mate-doce
nunca chegava pra ela
quando corria na volta
passando de mão em mão.
E dona Branca, a madrinha,
que de raro em raro vinha
ali na Estância da Cruz,
nem mesmo a mão lhe estendia
se humildezinha pedia
que lhe botasse a benção.
Que diferença que havia
entre o jeito da madrinha
e a maneira do patrão!
Bom patrão e bonito,
aquele bigode branco
caindo ao longo da boca
que nem na sanga do açude
dois galhos de um só chorão.
Nosso senhor que lhe ajude
por ser tão bom, meu patrão!
Ali nascera e vivera...
era seu mundo a estância,
a casa branca, os galpões,
a sanga que se perdia
na lonjura da distância
o pasto pura forquilha,
o açude, a várzea, os capões.
Mais além - o que haveria?
decerto a cidade grande
de casario ajoujado
que nem tambeiro em carreta
(essa cidade de sonho
que jamais conheceria).
Porque seu mundo era a estância
o mundão que ela gostava
por conhecê-lo tão bem.
Gostava, sim e que tanto!
malgrado a inveja das negras,
malgrado o olhar da madrinha,
que a devassava e feria
como um punhal de silêncio.
Ali nascera e vivera
na velha Estância da Cruz.
Quanto tempo? quantos anos?
entre quinze e dezessete
tinha certeza segura,
os peitos já lhe pulavam
atrevidaços e duros
como dois frutos maduros
guardando sumo e dulçor.
E a graça serena e virgem
do andar de corça e potranca
na curva esquiva da anca
soleando ao tranco do passo.
E disso conta não dera
não fora o olhar diferente
doído como um laçaço
com que a madrinha a medira
do pé descalço à cabeça.
Só então se apercebera
da lenta e firme mudança,
tão moça feita e tão linda
mas dentro de si ainda
a mesma antiga criança.
E aqueles índio safados
que a perseguiam nos cantos
quando cruzava o galpão
fora decerto por isso:
pelos peitos atrevidos,
pelo boleado da anca,
por moça feita e por linda
que ela já era, pois não.
Então acendeu-se nela,
num de repente esquisito,
desejos de um peito forte
onde escondesse a cabeça,
onde escondesse a vontade
o querer... de não sei quê.
E o tempo, o tropeiro velho,
sem dar-se conta de nada,
tocando a tropa apartada
dos dias idos e findos.
Um dia chegou na estância,
montando um flete picaço,
um quebra de chapéu torto,
pala branco sacudindo
aos tapas de um vento sul.
Vinha ficar por uns tempos
para quebrar o corincho
da bagualada gaviona
daquela Estância da Cruz.
Tinha um entono de angico
o tal quebra domador,
jeito de tigre em peleia
e uns olhos negros queimando
mais que fagulha assoprada
de um tição de cerne bom.
E a mulatinha da estância
-coração maravilhado-
pelo torena chegado
de puro amor se incendiou.
Numa noite de minguante
fez-se o quebra seu amante,
colheu o fruto e a flor.
Se era alarife o torena!
boi roceiro acostumado
a cruzar por alambrado
sem deixar pelo no fio.
Por isso que ninguém viu.
E assim foi que ali na estância
ninguém bispou-lhe a manobra,
ninguém cortou-lhe caminho
e o torena que nem cobra
que enfeitiça passarinho.
Um dia, a tropilha pronta,
pro patrão pediu as contas,
conferiu bem e contou,
pôs o recau no picaço,
quebrou o cacho e ao passo
pelo mundão se rolou.
Nem um adeus, a lo menos,
para a moça que ali ficara
com jeito de sorro morto.
Foi ao tranco, o chapéu torto
fazendo sombra na cara.
E então a moça perdida
no puro amor machucada
ficou vendo a retirada
do seu quebra domador.
Também palavra não disse
feita silêncio e sem gestos
ficou pisando nos restos
do que já fora uma flor.
Só o riso da madrinha
quebrava a calma da tarde
como a gloriar o covarde
que a deixara ali sozinha.
Então, nessa mesma noite
-ninguém soube porque fosse-
a mulatinha enforcou-se
num galho do velho ipê,
que amanheceu florescido
como se houvesse entendido
que alguém morrera ao seu pé.