A AVÓ DE TODAS AS SANTAS

Adão Quevedo da Silva Filho

 

Dona Isaura já beirava

um século de existência,

gastou toda bem querença

com filhos, netos, bisnetos;

dividiu tantos afetos

que pra si apenas tinha

uma pequena pontinha

do tempo que lhe restava.

 

Ainda sobrava ternura

nos seus olhos tão humanos.

Deus, talvez pôs por engano

uma santa aqui na terra.

Até Deus que nunca erra,

vendo sua alma branquinha,

deixou que ficasse velhinha,

cuidando lá das alturas.

 

Ela sabia os segredos

da antiga sabedoria:

é o homem tolo quem cria

seus abismos e tormentas

e quanto mais ele inventa

menos conhece a si mesmo

e deixa escorrer, a esmo,

a vida por entre os dedos.

 

Por isso ela compreendia

as inquietudes das almas,

quem não decifra seus traumas

não encontra porto algum

e vive a afundar, um a um,

seus navios de incompreensão

juntando na contramão

seus tesouros sem valia.

 

O que mais me desencanta

é saber que qualquer dia

vou encontrar ali, vazia,

a cadeira de balanço...

Não mais os seus olhos mansos,

nem a sua face serena,

só a lembrança terrena

da avó de todas as Santas.